Assimagra

Recursos Minerais de Portugal

ESCALADA DE PREÇOS DA ENERGIA SEMEIA APREENSÃO EM DIVERSOS SETORES

Custos Independentemente da sua dimensão, a maioria das empresas e das associações manifesta grande apreensão quanto ao futuro, tendo em conta a subida de custos energéticos


Da cerâmica, passando pelo vidro, pela indústria extractiva de pedra ou pela produção de leite, independentemente da dimensão da empresa ou do sector de actividade, todos os empresários ouvidos pelo JORNAL DE LEIRIA partilham uma grande apreensão quanto ao futuro, na sequência da já longa escalada de preços dos custos da energia, que a guerra entre a Rússia e a Ucrânia veio agravar. Todos vão trabalhando no sentido de atenuar o problema, mas acreditam que não é suficiente para o ultrapassar.


Miguel Goulão, presidente da Associação Portuguesa da Indústria dos Recursos Minerais (Assimagra), explica que a indústria extractiva de pedra tem associada uma forte componente de energia fóssil, o gasóleo, bem como de energia eléctrica, sendo que os aumentos dos seus preços “são muito significativos”.


Cerca de 40% dos custos de produção têm a ver com energia (entre combustível fóssil e electricidade), quantifica o dirigente.


O aumento dos custos da electricidade teve um impacto especialmente grande há mais de um ano, mas que foram atenuados após intervenção do Estado.


Entretanto, já muitas empresas do sector se foram preparando e apostando em investimentos de auto-consumo, através da instalação de painéis fotovoltaicos, acrescenta Miguel Goulão. No entanto, no que respeita ao aumento dos preços dos combustíveis fósseis, “não há como fugir”.


“Mesmo que algumas empresas queiram fazer a transição para tecnologias onde se use electricidade, estão reféns, já que os fornecedores não têm esses equipamentos disponíveis”, realça o presidente da Assimagra.
Sem previsão de quanto mais tempo estes aumentos possam durar, “cria-se instabilidade nas empresas”, sublinha o dirigente.


“O sector felizmente tem valor acrescentado bruto bastante elevado e tem uma almofada que lhe permite encaixar estes aumentos”, afirma Miguel Goulão. Não obstante, olhando para 2023, percebe-se que poderá haver uma redução do mercado, fazendo com que algumas empresas tenham então de reflectir sobre as suas dimensões, reconhece o presidente.


Com a sua própria exploração em Alfeizerão, no concelho de Alcobaça, Jorge Silva é também presidente da Associação dos Produtores de Leite de Portugal (Aprolep).


Explica que este sector também tem sido penalizado pela subida de custos da energia, quer da electricidade, quer do gasóleo, aumento que já se notava em 2021, mas que se adensou depois da guerra entre Rússia e Ucrânia.


Além de ser prejudicado directamente pelo aumento da factura energética, também o é indirectamente, devido ao aumento dos preços das matérias-primas, como é o caso das rações, que alimentam os seus animais.


Reflexo deste e de outros constrangimentos que têm afectado as explorações ao longo de vários anos, o número de produtores de leite baixou em todo o País, de cerca de 80 mil, em 1998, para os actuais 1600.


Muitas destas empresas têm vindo a instalar painéis solares, para minimizar os impactos da subida dos preços da electricidade, e há quem tenha avançado para outras formas alternativas de auto-produção. Foi o caso da vacaria de Uziel Carvalho, empresário de Leiria, que utiliza biogás. “Mas é exemplo único no País”, realça o presidente da Aprolep. É um investimento avultado e que só é viável porque, além da vacaria, este sistema serve a exploração de horticultura, que Uziel Carvalho também detém, expõe Jorge Silva.


Em Setembro, em entrevista ao JORNAL DE LEIRIA, o próprio responsável pela Germiplanta o explicava: “o investimento é pesado, mas tenho biogás, que nos permite produzir energia eléctrica, água quente para a exploração, permite também a esterilização de restos de matéria- orgânica, que voltamos a usar nas camas dos animais. Muito disto é o que nos habituamos a chamar de economia circular”.


“Na minha vacaria nada é deitado fora. Os estrumes são todos aproveitados, as águas são reutilizadas nas lavagens de parques, para rega, etc. De alguma forma já previa o que estamos a viver e fui apetrechando o espaço com equipamentos capazes de melhorar os meus custos de produção. Mas isto não está ao alcance de qualquer pessoa, quer economicamente quer em termos técnicos”, constatava Uziel Carvalho, também presidente da Associação de Regantes e Beneficiários do Vale do Lis.


No sector do vidro, Nelson Martins, gerente da Crisbase, fundada em 1995, na Marinha Grande, também se mostra reticente quanto às oportunidades que possam surgir num futuro próximo para o sector da iluminação.
Esta unidade fabrica iluminação em série, mas através de vidro soprado manualmente, com características de artesanato. Tem 14 colaboradores e exporta 96% do que produz, sobretudo para a Europa.

Nelson Martins observa que o aumento do preço da energia (gás e electricidade) é um constrangimento que “asfixia” as poucas indústrias manuais de vidro que resistem. Além disso, o empresário manifesta grande dificuldade em captar mão-de-obra especializada e, num contexto de imprevisibilidade trazido pela guerra, acredita que possa diminuir o volume de encomendas.


Apesar da contrariedade, baixar os braços não é opção para esta fabricante de artigos de iluminação da Marinha Grande. Além de investir frequentemente no marketing e em feiras internacionais, sobretudo na Alemanha e em Itália, no sentido de reforçar a sua presença nos mercados onde já actua e de captar também novos clientes, a Crisbase tem feito apostas no sentido de reduzir a factura energética e aumentar a sua produtividade.
“Investimos na renovação de boa parte do parque de máquinas e também do sistema informático, para obter mais rentabilidade, reduzir consumos e custos”, salienta o empresário.


“Há dois anos também instalámos um sistema de aquecimento de água, através de painéis solares”, acrescenta Nelson Martins, explicando que a zona de acabamentos do vidro carece de grande quantidade de água, que tem de estar numa temperatura adequada para que as peças possam ser manuseadas pelos operários.
Cerâmica, um sector muito fustigado.


No sector da cerâmica, Carla Moreira salienta que a subida de preços da energia tem tido um impacto “colossal” na Arfai, de Alcobaça, “tendo reduzido o EBITDA da empresa a 50%, impossibilitando a realização de investimentos agendados para 2022, nomeadamente a expansão de instalações”.
“Fomos forçados a aumentar os nossos clientes por mais de uma vez em 2022, indo contra a prática habitual de 27 anos, gerando situações delicadas de gerir com alguns destes, quebra de confiança nos mercados, descida de volume de compras, entre outros constrangimentos”, expõe a CEO da Arfai, onde a produção depende de gás natural e de electricidade.


“O contrato de gás natural que tínhamos foi denunciado unilateralmente em Agosto de 2021 e, até Dezembro de 2021, o custo do gás duplicou”, lembra a empresária. “Em 2022 , o custo esteve indexado , com o gás a atingir valores absurdos, que nos assustaram tremendamente no primeiro semestre, por ser inviável para a actividade continuar a suportar tais custos”, prossegue Carla Moreira. “Actualmente, conseguimos fixar o custo, mas tal facto não nos tranquiliza, pois sabemos que a qualquer altura a situação é reversível e a nossa indústria não suporta o gás ao custo que este se encontra no presente momento”, frisa a CEO. “No primeiro semestre de 2022, o nosso custo com gás natural aumentou 200 mil euros”, refere.


“Já há vários anos que havíamos investido em painéis solares, investimento este que vamos reforçar no primeiro trimestre de 2023”, destaca a empresária. “Substituímos três fornos mais antigos por fornos novos, que visam uma maior eficiência energética, assim como outros >>>equipamentos de ordem vária, e estamos a realizar investimento em aproveitamento do calor dos fornos para uso na estufa, fonte de grande consumo de gás natural, sobretudo neste período de Inverno que se aproxima”, informa Carla Moreira.
“O próprio desenvolvimento de produto está neste momento de olhar atento na redução de consumo de gás, pois é esta a nossa maior preocupação, estudando produtos/decorações que possam permitir a redução dos consumos e retoques de produto”, acrescenta.


Do seu ponto de vista, “somente o Governo pode e deve intervir, fixando o custo em valores aceitáveis e apoiando as empresas nos prejuízos que tem suportado ao longo deste ano”.
“Não há que esquecer que, apesar do gás natural ter tido o maior impacto, as empresas viram todas as suas matérias-primas subir de preço, subidas que nunca vimos antes. Falamos de aumentos de alguns casos de mais de 60%, como é o caso do cartão/embalagens, vidros na ordem dos 25-30 %, gesso, pastas, enfim, todas as matérias que compramos subiram exponencialmente, com uma quebra nos mercados, que se está a acentuar fortemente neste final de ano”, realça.


“É claro como água que as empresas terão de fazer muitos ajustes, nomeadamente a rescisão de contratos com trabalhadores, o que já está a acontecer no nosso sector e infelizmente será uma realidade em 2023, fruto da conjuntura actual internacional e das adversidades energéticas que as empresas enfrentaram no corrente ano”, entende a CEO da Arfai, empresa fundada em 1995 e que emprega 100 pessoas.
Dedicada à produção de faianças decorativas, a Arfai exporta 98% do que produz, sobretudo para Alemanha, Inglaterra, Escandinávia e Estados Unidos da América. Em 2021, alcançou um volume de negócios na ordem dos 3,5 milhões de euros.


Fomos forçados a aumentar os nossos clientes por mais de uma vez em 2022, indo contra a prática habitual de 27 anos, gerando situações delicadas de gerir com alguns destes, quebra de confiança nos mercados, descida de volume de compras, entre outros constrangimentos.

 

In: Jornal de Leiria

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