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Recursos Minerais de Portugal

UMA “FLOR DE LIS” NO MEIO DA TEMPESTADE

In: Região de Leiria

Artigo de Opinião, Agostinho da Silva (Pró-Presidente do Politécnico de Leiria)

Estamos prestes a assinalar dois meses desde que a tempestade Kistin atingiu a região Centro com uma violência difícil de esquecer. Em pouco mais de uma hora, a força da natureza expôs fragilidades, interrompeu rotinas e deixou marcas profundas num território que representa cerca de 20% do PIB nacional, mais de 36% do emprego industrial e mais de 28% das exportações, excluindo Lisboa e Porto.

Na região de Leiria, uma das poucas onde as exportações industriais representam quase metade do PIB, a dimensão da destruição, ainda por apurar, terá rondado os 40% da riqueza anual gerada, o equivalente a cerca de 1,5% do PIB total nacional. Durante semanas, faltou o essencial. Sem energia, comunicações ou água, com fábricas paradas, estradas cortadas e casas sem telhado, ficou exposta a dependência de infraestruturas que damos por garantidas.

Porém, tal como na natureza, é também em momentos de catástrofe que emergem os atores que garantem a resiliência dos ecossistemas. No meio de um turbilhão de prejuízos e incerteza, tal como uma “flor de lis” em terreno devastado, a fábrica Adelino Duarte Mota, empresa que opera em recursos minerais, sediada nas Meirinhas, concelho de Pombal, também fortemente afetada, decidiu colocar, antes de tudo, a capacidade industrial que resistiu à tempestade ao serviço da comunidade.

Um dia após a catástrofe, enquanto reparava telhados, protegia equipamentos da chuva e contabilizava prejuízos próximos dos 15 milhões de euros, a empresa mobilizou as suas três turbinas de cogeração, cada uma com 3 MW de potência, para produzir e disponibilizar energia elétrica ao exterior. Numa primeira fase, abasteceu cerca de centena e meia de pontos de consumo, entre famílias e pequenas empresas, alargando rapidamente esse apoio a mais de seis centenas nos dias seguintes.

Graças a esta resposta, as escolas da freguesia reabriram, o centro de saúde manteve-se operacional, o pequeno comércio permaneceu aberto e as bombas de combustível continuaram a funcionar. Centenas de famílias conseguiram preservar alguma normalidade no seu quotidiano, desde conservar alimentos até carregar viaturas elétricas. Tudo isto sem qualquer intenção de promoção, sendo que os custos desta iniciativa nem sequer foram divulgados pela empresa.

Este episódio convida-nos a refletir sobre o papel da indústria, em particular do setor dos recursos minerais, ao qual pertence esta empresa. É um setor que, apesar de oferecer salários médios cerca de 22% acima da média nacional, continua a ser alvo de preconceito e desvalorização. Falar de recursos minerais é, demasiadas vezes, encarado como um tema incómodo.

A realidade demonstra o contrário. Estas indústrias não são apenas ativos económicos exportadores ou o sustento de milhares de famílias. São também um pilar de resiliência territorial. Em momentos de crise, são este tipo de infraestruturas, competências e capacidade instalada que fazem a diferença entre o colapso e a recuperação.

Cabe a todos reconhecer este contributo. Avaliar com seriedade o impacto sistémico de empresas como as que integram o Grupo Mota Ceramic, ao qual pertence a unidade Adelino Duarte Mota, e compreender que o desenvolvimento sustentável não se constrói ignorando setores essenciais, mas integrando-os de forma inteligente e responsável.

A tempestade Kristin deixou destruição, mas também ensinamentos. Entre eles, a certeza de que uma região forte precisa de uma indústria forte. E que, quando tudo falha, é precisamente aquilo que tantas vezes criticamos que nos mantém ligados à vida.