Mais de duas dezenas de oradores – entre os quais o Secretário de Estado Adjunto e da Energia, o Ministro das Infraestruturas e Habitação, António Costa Silva e Pedro Brinca – discutiram, nos dias 7 e 8 de julho, em Leixões, o presente e o futuro da pedra natural e dos minerais críticos.
Nos dias 7 e 8 de julho de 2026, o Terminal de Cruzeiros de Leixões, em Matosinhos, recebeu o SUMMIT StonebyPORTUGAL 2026, organizado pela ASSIMAGRA – Associação Portuguesa da Indústria dos Recursos Minerais. Sob o mote “Two Days – One Industry”, o evento reuniu mais de duas dezenas de oradores – entre decisores políticos, empresários, investigadores e representantes de organismos nacionais e internacionais – num programa dividido em dois dias temáticos: o Stone Day, dedicado à pedra natural, e o Mining Day, focado na indústria mineira e nas matérias-primas críticas.
Mais do que uma sucessão de painéis e keynotes, o Summit voltou a afirmar-se como o principal palco público do setor dos recursos minerais em Portugal, juntando dados económicos, propostas de política pública e presenças institucionais de topo. Fica aqui o balanço das duas jornadas, organizado pelos grandes temas que as atravessaram.
PRESENÇA INSTITUCIONAL E PERSONALIDADES EM DESTAQUE
A sessão de abertura do Mining Day contou com a presença de Jean Barroca, Secretário de Estado Adjunto e da Energia, que se juntou a Miguel Goulão, presidente da ASSIMAGRA, na mensagem inaugural do segundo dia.

Jean Barroca, Secretário de Estado Adjunto e da Energia, na sessão de abertura do Mining Day.
Entre as personalidades do setor, destacou-se a intervenção de António Costa Silva – professor jubilado do Instituto Superior Técnico, ex-Ministro da Economia e do Mar (2022-2024) e autor da Visão Estratégica para o Plano de Recuperação Económica de Portugal 2020-2030 -, que assinou um dos keynotes mais aguardados do Mining Day, “Minerais Críticos: o que está em jogo na próxima década?”.

No mesmo dia, Pedro Brinca, da Nova School of Business and Economics (Nova SBE), apresentou o estudo independente sobre o impacto económico do setor dos recursos minerais em Portugal – um dos momentos mais citados de todo o Summit. Já no Stone Day, o arquiteto britânico Amin Taha (GROUPWORK) trouxe uma perspetiva internacional sobre novas aplicações estruturais da pedra natural, e Tiago Lopes (Universidade Lusíada) abriu a jornada com um enquadramento geoestratégico sobre “o mundo em mudança”.
O PESO ECONÓMICO E A AUTONOMIA ESTRATÉGICA DO SETOR
O estudo apresentado por Pedro Brinca foi um dos momentos mais marcantes do Summit: a indústria dos recursos minerais contribui com 1,29% do PIB nacional, gera um impacto económico total superior a 3.735 milhões de euros e sustenta mais de 73.800 empregos ao longo de toda a cadeia de valor.
“Somos uma exceção de sucesso no panorama nacional. Fomos a indústria extrativa que mais aumentou salários, pagando em média 37% acima do resto da economia, e a nossa produtividade é 1,58 vezes superior à média nacional.” – Miguel Goulão, presidente da ASSIMAGRA
Para Goulão, o setor “não é apenas uma herança do passado; é a chave para a transição energética e para a autonomia estratégica europeia” – uma ideia que atravessou transversalmente as intervenções dos dois dias.
MINING DAY: MINERAIS CRÍTICOS E ACESSO AO TERRITÓRIO
Aberto por Jean Barroca e Miguel Goulão, o Mining Day colocou no centro do debate o acesso ao território. Num contexto marcado pelo Critical Raw Materials Act da União Europeia, foi recordado que Portugal dispõe de reservas relevantes de minerais críticos – como lítio, tungsténio e cobre -, essenciais para a energia, a mobilidade, a digitalização e a defesa europeias.
Depois do keynote de António Costa Silva, o dia incluiu ainda mesas redondas dedicadas ao licenciamento do subsolo – moderada por Célia Marques (ASSIMAGRA), com Patrícia Falé (DGEG), Teresa Ponce de Leão (LNEG) e Inácio Esperança (ANMP) – e ao lítio português, moderada por Victor Francisco (CTCV), com Emanuel Proença (Savannah Resources), Duarte Braga (Lifthium Energy), Romeu Vieira (Federação Europeia de Geólogos) e António Braz Costa (CENTI). A ASSIMAGRA deixou um apelo claro ao Estado: criar mecanismos de licenciamento acelerado (fast-track) para projetos estratégicos, eliminar a sobreposição de competências administrativas entre organismos e autorizar o uso de gasóleo colorido nas máquinas de pedreira e mina, como forma de mitigar o peso dos custos energéticos.

O dia encerrou com a mesa redonda “Matérias-Primas Críticas: Garantir o Abastecimento para Infraestruturas Estratégicas e Soberania Nacional”, moderada por Miguel Goulão, com a participação de Carolina Mota (Corsário), Daniel Rebelo (EDM) e José Rodrigues (JJR).

STONE DAY: SUSTENTABILIDADE E INOVAÇÃO
No Stone Day, ficou demonstrado que a sustentabilidade deixou de ser uma intenção para se tornar uma prática mensurável. Foi apresentada a nova ferramenta StonePRINT, que permite às empresas comprovar perante o mercado global a sua pegada ambiental: a transformação puramente mecânica da pedra natural, sem cozedura nem fusão, garante um carbono incorporado significativamente inferior ao de alternativas como o betão, o vidro ou a cerâmica, com emissões até nove vezes inferiores.
O Summit serviu ainda de palco ao lançamento do novo Manual de Arquitetura “Portuguese Stone”, que aborda o projeto, o dimensionamento, o processamento, a aplicação, a manutenção e o ciclo de vida da pedra natural – um tema aprofundado também na keynote internacional de Amin Taha sobre novas aplicações estruturais da pedra. Na mesa redonda dedicada à digitalização, moderada por Nuno Ferreira (Deloitte), com Joana Frazão (FRAVIZEL), Pedro Amaral (IST), Diogo Custódio (Julipedra) e Agostinho da Silva (CEI), discutiu-se se a transformação digital da indústria da pedra representa apenas eficiência interna ou já cria valor real para o cliente. No plano económico, foi destacado que 72% do valor exportado assenta já em pedra transformada e com design, com uma valorização média do produto exportado de quase 6% no início de 2026.
UM COMPROMISSO COM O TERRITÓRIO
Para responder às preocupações ambientais associadas à atividade extrativa, a ASSIMAGRA propôs a criação de um Fundo de Responsabilidade Territorial, destinado a substituir o atual regime de cauções. O fundo permitirá ao setor intervir de forma proativa na recuperação de áreas intervencionadas e na correção de impactos acumulados, devolvendo valor às comunidades locais – especialmente no interior do país, onde a indústria extrativa é, em muitos concelhos, o principal motor de coesão territorial e de emprego qualificado.
Do estudo da Nova SBE às propostas de política pública, dos números da descarbonização às novas coleções do BROOT, o SUMMIT StonebyPORTUGAL 2026 confirmou que a indústria dos recursos minerais tem hoje uma voz articulada e dados sólidos para sustentar o seu lugar central na economia e na autonomia estratégica de Portugal.
“O protagonista não é cada um de nós individualmente; o protagonista é Portugal. Temos a pedra certa, os recursos necessários e a coragem de investir. Precisamos apenas que o país nos deixe trabalhar.” – Miguel Goulão, no discurso de encerramento
Fica, assim, o balanço de duas jornadas que uniram pedra, território e futuro – e o convite para a próxima edição do Summit StonebyPORTUGAL.